quarta-feira, 15 de maio de 2013

Para compreender o Prāṇāyāma




Introdução
Prāṇa é o termo que o yogi usa para se relacionar com a sua própria respiração e também com toda a energia que sustenta o universo. Prāṇa é a energia que permite que o corpo e a mente funcionem. Exercícios respiratórios são formas excelentes para a o desenvolvimento desta energia. Eles são o foco principal do Prāṇāyāma, que é o quarto estágio da prática, colocado por Patañjali nos Yoga Sūtras. Além de desenvolver a nossa energia, o Prāṇāyāma é uma importante ferramenta para relaxar o corpo durante o esforço durante a prática de āsanas e também para estabilizar a mente para as práticas meditativas.
A respiração não é apenas uma indicação de que estamos vivos, mas também uma forma de conexão com aquilo que é livre de formas e nomes (Brahman), que é apontado pelo elemento ar, e se sutiliza, posteriormente, no elemento espaço.
Não é a toa que quando queremos empreender um grande esforço, damos uma profunda respirada!
Para as práticas mais sutis, é necessário mais energia, maior concentração para estabilizar a mente, que pode ser feito através da respiração profunda e consciente.
O Prāṇa é um assunto bastante importante para várias práticas de Yoga que enfatizam a relação desta energia com os canais sutis do corpo (nādīs) e cakras que estão estabelecidas em nosso corpo sutil.
  
Muitas coisas são faladas sobre as práticas de prāṇāyāma hoje em dia. A idéia é dar o significado implicado à estas práticas segundo o Śāstra.

Falamos isso, pois assim como houve uma deturpação quanto à prática de āsanas, também houve em relação ao prāṇāyāma.

Os fins foram confundidos com os meios. Na prática de āsanas, nós já frisamos que, há um ganho na força, flexibilidade, equilíbrio da saúde em geral do corpo.

Mas isto não é o objetivo da prática de Yoga. Nós não podemos simplesmente retirar uma técnica de todo um contexto muito maior.

Estas são consequências da constante exposição à prática. E no prāṇāyāma também há resultados da mesma natureza. Há uma melhora na capacidade de respirar. Doenças respiratórias podem ser atenuadas e até mesmo desaparecer.

Mas para um Yogi, este não é o objetivo, é um ganho. Um ganho valioso, mas apenas um ganho. Portanto, não vamos confundir Yoga com prāṇāyāma.

Um Yogi deseja, a partir da técnica de prāṇāyāma, maior tranquilidade e clareza para a mente. Apesar dos seus efeitos bastante visíveis sobre o corpo, o prāṇāyāma é uma potente ferramenta usada para estabilizar a paisagem da mente.

Este processo de tranquilização e amadurecimento da mente, é chamado em sânscrito de antaḥkaraṇaśuddhi, que literalmente significa: purificação do instrumento interno, que é a mente.

Uma mente tranquila e madura é capaz de olhar para o mundo como ele é. É capaz de transcender os seus próprios gostos e aversões e agir conforme o Universo lhe proporciona as situações ao longo da vida.

Nos recentes manuais de Yoga, podemos encontrar dezenas de técnicas respiratórias. Cada uma especialmente feita para uma determinada época do ano, lugar, ocasião. Mas a bem da verdade, é aí que a confusão se instala. E ali, o praticante se vê perdido frente à tantas opções, e sem saber bem o por que de tudo isso.

A idéia, aqui, não é descartar estas técnicas, mas entender que todas elas são um meio para antaḥkaraṇaśuddhi e não para ficar minutos sem respirar.

Nosso mestre, Swāmi Dayānanda, por exemplo, ensina que um dos prāṇāyāmas mais interessantes para cultivarmos uma mente tranquila, é o Nādī śodhana prāṇāyāma. O exercício no qual alternamos narinas nas inspirações e expirações.
Ele nos conduzia neste exercício todas as manhãs antes da prática de meditação. E outra coisa interessante que ele ensinava, era que não era necessário mais do que dez ciclos para cada narina. Ou seja, verdadeiramente é uma preparação, e que o principal, vinha depois, a meditação, na qual a mente precisa estar um pouco mais estável.

Seguindo esta linha de pensamento do nosso mestre, duas escrituras muito importantes para aqueles que estudam o Yoga, também não discorrem demasiadamente sobre o assunto.
Nos Sūtras de Patañjali, por exemplo, está escrito:

“tasmin sati śvāsapraśvāsayorgativicchedaḥ prāṇāyāmaḥ” ||49||

O prāṇāyāma consiste na regulação do movimento da inspiração e da expiração.

Na Gītā temos outro exemplo bem parecido e muito interessante no que tange a confusão entre meios e fins:

“apāne juhvati prāṇaṁ prāṇe’pānaṁ tathāpare|
prāṇāpānagatī ruddhvā prāṇāyāmaparāyaṇāḥ” ||

Ainda outros, seguidores do controle da respiração, controlando a expiração e a inspiração, oferecem a expiração na inspiração e a inspiração na expiração.

Este trecho da Gītā é bastante interessante, pois nele, Kṛṣṇa está explicando o fato de que nenhuma ação é capaz de lhe dar o conhecimento sobre o absoluto. Nenhuma ação é capaz de te livrar da sensação de limitação, já que uma ação é limitada em si mesma. Portanto, o prāṇāyāma, como uma ação, também é limitado. Apenas te prepara para ter uma mente mais contemplativa.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Eu amo meu ego!




Esta frase pode parecer bem estranha, quando a dizemos no meio do Yoga.
Mas é graças a ele que estou aqui, agora. Foi através dele que fiz minhas escolhas a vida inteira. Foi através dele que criei minha identidade na sociedade e posso ser quem sou. Portanto, tenho que gostar muito do meu ego.

Existe um preconceito muito forte em relação à esta palavra. Dizer que você tem um ego, ficou tão agressivo ou pejorativo quanto dizer o que se dizia há anos atrás sobre minorias étnicas ou opção sexual.

Na verdade, o que houve foi uma grande confusão causada por maus professores, que, na tentativa de manipular mais facilmente a mente de seus alunos, começaram a espalhar esta idéia.
Ora, se não tenho a capacidade ou discernimento de fazer uma escolha, acabo aceitando o que é dito, ou, pior ainda, deixo escolherem por mim.

É necessário entendermos que o ego não é bom, nem ruim em si mesmo. Ele apenas cumpre uma função em nossas vidas. Escolher.

Como disse no primeiro parágrafo deste artigo, é através do ego que faço minhas escolhas. Se não fosse por ele, não sairia da minha cama todas as manhãs. Não conseguiria escolher minhas roupas, nem o que fazer.

É através do ego que consegui formar minha personalidade. É através dele que consigo interagir com o mundo.

O ego é esta noção de eu que me estabelece como um indivíduo. A ele se atribui um nome, características físicas, emocionais e sociais, através dos quais eu consigo me reconhecer.
Imagine se não houvesse nomes? Como chamaríamos uns aos outros? Imagine se não houvesse diferenças físicas ou emocionais entre todos nós? Qual seria a graça da vida, sendo tudo igual?

Por causa do ego, podemos ter profissões diferentes, idéias diferentes, podemos cumprir diferentes papéis, e desta forma, construirmos uma sociedade onde cada um contribui de uma forma diferente.

Segundo a visão do Vedānta, nós somos dotados de uma ferramenta bastante especial para nos relacionarmos com o mundo. Em sânscrito, ela recebe o nome de antaḥkāraṇa, ou instrumento interno.

A grosso modo poderia ser traduzido apenas como mente. Mas esta mente é subdividida em quarto partes com diferentes funções, Segundo Śri Śaṅkarācārya, no Tattvabodhah.

“A partir do aspecto sáttvico dos cinco elementos, nascem a mente (manas), intelecto (buddhi), ego (ahaṅkāra) e memória (citta). Estes formam o antaḥkāraṇa.”
“A natureza da mente é a dúvida”.
“A natureza do intelecto é a decisão.”
“A natureza do ego é esta noção de que eu faço.”
“A natureza da memória é guardar aquilo que já foi vivido.”

Depois de explicar a natureza de cada um, Śaṅkara, explica também como cada um funciona e se comporta relacionando-os com determinados atributos de certas deidades.

“A deidade que preside a mente é a lua.” (pois assim como a lua, a mente tem fases).
“Brahmā é aquele quem preside o intelecto.” (já que a partir de decisões, objetos e situações são criadas).
“Rudra preside o ego.” (através de nossas ações, promovemos mudanças).
“Vāsudeva preside a memória”.  (Vāsudeva representa a manutenção).

Portanto, não é interessante este conceito de dissolvermos ou destruirmos o ego. Esta foi uma idéia mal colocada, por maus professores, que tinham o intuito de moldar a mente de seus alunos à sua forma.
Estes mesmos professores afirmaram que estas disciplinas estavam contidas nos Śāstras e era o objetivo de uma vida de Yoga.
Na verdade, não há nenhuma história destas nos Śāstras, e também sabemos que o objetivo de uma vida de Yoga é autoconhecimento.

Para podermos desfazer esta confusão, podemos recorrer à algumas escrituras que lançam luz sobre esta questão. Um exemplo clássico desta confusão é o segundo sūtra de Patañjali sobre o Yoga. Na maioria das traduções, sempre vemos que o sūtra é traduzido ao pé da letra e não acompanha um comentário de um professor que esteja, de fato, ligado à Tradição.

A tradução do sūtra acaba ficando sem sentido. “Yoga é a cessação dos movimentos da mente”. Ou o “controle dos movimentos da mente”. Quando analisamos esta afirmação com cuidado, percebemos que é um acontecimento impossível. A não ser que estejamos em sono profundo ou inconscientes. Outra coisa impossível de ser feita, é controlar o que será pensado. Nenhum de nós tem esta capacidade. Os pensamentos simplesmente vêm. Portanto, Patañjali estaria equivocado ou somos nós que não tivemos clareza suficiente para compreendermos sua idéia?

Temos que compreender que a literatura dos sūtras, exclui tudo aquilo que é excessivo em sua escrita para facilitar sua memorização. Portanto, passando os olhos, sem o devido cuidado sobre o texto, pode deixar lacunas abertas.

yogaścittavṛttinirodhaḥ || 2 ||
“Yoga é a cessação [da identificação] com os cittavṛttis”.

Aqui Patañjali define o que é esta disciplina chamada Yoga. Normalmente este sūtra é traduzido como o “controle da mente”, mas novamente temos que atentar para o que é este controle. Na palavra nirodhah, está o radical rudh. Rudh significa controlar sem esforço. Controlar naturalmente. Usando o esforço quando necessário. Mas mesmo entendendo este radical, a compreensão deste sūtra fica um pouco superficial.

Na Bhagavad Gītā, Kṛṣṇa define o Yoga da seguinte forma:

Tam vidyādduhkhasaṁyogaviyogaṁ yogasañjñitam sa niscayena yoktavyo yogonirvinnacetasā. (Cap 6, 23)

“Que seja sabido que esta dissociação da associação com a dor é chamada Yoga. Yoga deve ser seguido com determinação e sem uma mente que tenha indiferença.” O sofrimento é fruto de nossa identificação com os vrttis (julgamentos, pensamentos, projeções...).

Quando me identifico com um destes objetos, automaticamente me vejo limitado à forma e atributo que vem junto deste.
E este é o problema que podemos ter em relação ao ego. O ego se atribui as diversas qualidades. Mas eu devo entender que são qualidades do ego, e não minhas.

É verdade que diversas vezes, nas nossas vidas, nos vemos fortemente apegados a estes atributos, e fazemos todo o esforço possível para não perdê-los.

Neste momento, a disciplina do Yoga se mostra valiosa, pois é através do autoestudo que começamos a discernir quem somos e quem pensamos ser.

Através desta disciplina há um esclarecimento de quem sou eu e quem é o ego.
O eu é sempre livre, imutável e nada faz. Portanto também não se relaciona com o resultado das ações. O ego é quem faz. Por isso em sânscrito é chamado de ahaṅkāra, ou, o eu que faz. Este sim, por agir, lida com os resultados de suas próprias ações.

Uma das coisas mais difíceis, para todos nós, na vida, é saber lidar com os resultados das nossas ações.
Sempre que agimos, pensamos ter o poder sobre o resultado da ação. E, pior do que isso, nos qualificamos Segundo estes resultados.
Quando um resultado é favorável, nos achamos vencedores, pessoas de sucesso. Ficamos felizes, pois apoiamos aquilo que somos nos resultados.

Da mesma forma, quando um resultado é “desfavorável”, nos classificamos como incapazes, e ali nos tornamos pessoas infelizes.
Usei as palavras favorável e desfavorável entre parênteses, porque na verdade esta qualificação é feita pelo ego. Pelos gostos e aversões que possuo na vida. Na verdade um resultado é apenas um resultado. E pessoas diferentes podem qualificar um mesmo resultado de formas diferentes. Portanto o problema não é o resultado em si, mas como me identifico com ele.

O ego, quando não cumpre o seu papel devidamente, faz com que nos tornemos pessoas exageradamente exigentes.
Estes padrões de exigência são impostos pela sociedade. Seja forte, belo, rico, etc…
Mas estes padrões se estabelecem apenas quando há comparações. Seja forte, mas qual é o parâmetro de força? Seja rico, mas o que indica riqueza? Só quando há comparação. Sou mais forte que fulano, sou menos rico que beltrano.

Não há nada de errado em ser rico, pobre, alto, baixo, gordo, magro e etc. Quando eu entendo que todos estes são atributos do ego e que se modificam constantemente. Quando tenho este entendimento, me dou conta  de que apesar de todas estas mudanças, a pessoa que eu sou, jamais se modifica.

Para conquistar este entendimento, é necessário maturidade, clareza. É necessário também querer este conhecimento.

Há um exercício bastante simples que podemos fazer todos os dias. Bastante familiar para aqueles que já praticam Yoga.
Ao final de uma prática de āsanas, sempre há um momento dedicado ao relaxamento. Neste momento, fechamos os olhos. É neste momento que deixamos de fazer uma das comparações mais fortes que geralmente fazemos, que é a visual.

Agora ninguém está olhando para você, e você não olha para ninguém. Ninguém está te julgando, tampouco você julga. Ninguém está se comparando. Ninguém está exigindo que um papel seja desempenhado de sua parte, nem você, de outra pessoa. Você não exige nada de si mesmo. Você é apenas você. Esta pessoa tranquila. E esta tranquilidade não é fruto de nenhum esforço. Esta tranquilidade se revela quando você ser permite ser quem você é.
Você não é o indivíduo composto por atributos sutis e densos. Você apenas é.

O julgamento é outra questão ligada ao ego que incomoda muitas pessoas. Já cansei de ouvir a famosa frase: “não julgo”, ou então me dizem: “não julgue! Você é um professor de Yoga!”

O julgamento é uma faculdade do ego. E todos nós estamos julgando o tempo inteiro. Não há vida sem julgamentos. É através do julgamento, feito pelo ego, que estabeleceremos o que faremos, como nos vestirmos e etc. Por isso, eu julgo, tu julgas, todos julgam!

Novamente, aqui, temos que esclarecer que o julgamento não é bom, nem ruim em si. É apenas o que o ego tem que fazer. E ainda bem que isso acontece, senão nada seria feito nesta vida.

Por isso o julgamento é necessário. E necessário também é aprender a não se ver como o julgamento que você faz. Você é uma coisa, o julgamento, outra.

Leve em conta que se você pratica Yoga hoje, é porque você julgou ser algo interessante para a sua vida. Se você é vegetariano, é por causa do seu julgamento. A sua escolha em não maltratar os animais, foi feita pelo seu ego. Se você leu este artigo até aqui, foi graças ao seu ego.

Eu amo meu ego e quero que ele continue sempre me ajudando a fazer as escolhas na vida. Quanto aos resultados, cabe a mim, também, aprender a acomodá-los

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Compreendendo o Ānandamayakośa





O Tattvabodhaḥ de Śri Śaṅkarāchārya é uma obra bastante interessante para todos aqueles que desejam aprofundar seus estudos em Vedānta. O texto é bem simples, na forma de um diálogo entre um professor e seu discípulo que busca o entendimento sobre si próprio. O grande ganho que temos ao estudá-lo é a familiarização que passamos a ter com palavras carregadas de significados que serão posteriormente vistas em praticamente todas as Upaniṣads.


Quando estudamos estas escrituras em sânscrito, podemos perder partes ou até mesmo toda uma idéia que está sendo passada através de suas palavras. Por isso, este texto nos oferece uma chance de compreendermos determinadas palavras que retêm melhor os seus significados quando mantidas em seu original, do que quando traduzidas. O Tattvabodhaḥ começa a ficar interessante quando o aluno pergunta ao seu mestre sobre a natureza de ātmā.


Ātmā kaḥ? (O que é o ātmā?)


Ātmā, dentro da visão de Advaita Vedānta, não pode ser qualificado pois não possui um nome ou forma definida, não tem início nem fim. Portanto, neste instante, a mente fica sem recursos para compreender a natureza de ātmā. Ela só funciona através de nomes e formas. 


E quando estas não estão disponíveis, fica impossível a sua tarefa, que é identificar tudo aquilo que ela se relaciona como objeto. Neste momento, o mestre resolve elucidar a questão se aproximando dela de outra forma: mostrando tudo aquilo que ātmā não é.


As três formas de conhecimento, segundo o Advaita Vedānta:


Segundo o Advaita Vedānta, existem três maneiras de se obter conhecimento. A primeira se chama pratyakṣa: que é o conhecimento direto. Quando estamos na presença do objeto. Parokṣa é quando alguém descreve o objeto. Portanto um conhecimento indireto e bastante impreciso. E, por último, aparokṣa é aquilo que se revela naturalmente. Sem a necessidade de um objeto ou uma descrição.


Digo aqui, sem objeto, porque ātmā não é um objeto a ser testemunhado, pois não possui atributos. Ātmā é o sujeito que tudo percebe e que se mantém livre de qualquer envolvimento, de qualquer modificação.


Portanto, o mestre e seu discípulo seguem em sua conversa, discorrendo sobre esta natureza do ātmā, eliminando um a um, cada objeto que é sustentado por ele. A princípio, o mestre descreve o indivíduo como constando de dezessete partes:
- Cinco órgãos de ação
- Cinco órgãos de percepção
- Cinco prāṇas
- Mente
- Intelecto


Kāraṇaśarīram kim? (O que é o kāraṇaśarīra?)


O texto nos leva daquilo que há de mais denso (sthūla e sūkṣmaśarīra), até o entendimento do mais sutil (kāraṇaśarīra). Este que é o mais sutil é chamado de kāraṇaśarīra. Esta é a parte mais difícil de se compreender e onde mais há confusão, entre nós, estudantes de Yoga e Vedānta. Grosso modo, poderíamos dizer que este kāraṇaśarīra, ou corpo causal, é uma “bagagem de karma” de cada indivíduo. Carregada com nossas vāsanas e saṁskaras. 


Estas vāsanās e saṁskāras, são os nossos desejos. Estes desejos são a causa do nosso retorno à forma de indivíduos. Estes desejos que têm como base a ignorância em relação à nossa natureza que já é plena em si mesma.


Desta forma o mestre descreve o kāraṇaśarīra da seguinte forma: “O corpo causal não possui uma forma (pois é o mais sutil de todos). Existe por causa da ignorância que não tem um início (A ignorância é uma experiência que não tem um início, mas que acaba quando o conhecimento sobre um determinado objeto ou assunto se estabelece. Mesmo que não conheçamos o objeto em questão. Portanto como nunca havíamos ouvido falar do objeto, sempre o ignoramos, mas logo que alguém nos apresenta este objeto e nos explica o que é, a ignorância se vai.).


É a causa dos outros dois corpos, que se estabelecem para poderem realizar os desejos do indivíduo. A natureza deste corpo é a própria ignorância em relação a si mesmo (o ātmā), basicamente porque não há o discernimento entre sujeito e objeto.”


Ānandamayaḥ kaḥ? (O que é o ānandamayakośa?)


Tendo compreendido aquilo que é o corpo causal, ainda há algo mais sutil a ser conhecido, e que está relacionado a este corpo, que é o ānandamayakośa. Para entendermos melhor o que é este ānandamayakośa, vamos desmembrar esta palavra em três partes:


A primeira a ser analisada será a palavra kośa. Kośa significa literalmente bainha. Como a bainha de uma espada. Ou seja, algo que ao cobrir um objeto, assume a forma do mesmo. Mas como ātmā não possui uma forma, esta definição fica um pouco perdida aqui. Já que ātmā não pode ser coberto por nada. Mas digamos que seja algo que pode me fazer pensar que estou “experimentando” ātmā. Vamos entender isso logo à frente quando falarmos sobre a palavra ānanda.


Em segundo vamos analisar a palavra maya. Aqui temos que ter o cuidado para não confundirmos com māyā, que significa “aquilo que é impossível de acontecer”. Maya significa a “transformação de”, ou “nada além de”.


Fica bem lógico quando pensamos no annamayakośa. E podemos traduzí-lo como o corpo que resulta na transformação dos alimentos (anna). O nosso corpo físico. E, em relação à terceira palavra que é ānanda, fica bem traduzido como “nada além de plenitude”.


Em cima disto, o professor discorre: “Este ānandamayakośa é aquele que é sustentado pela ignorância (em relação a mim mesmo), que é a razão pela qual o corpo causal existe. Consiste de sattva impuro (este sattva impuro, nos deixa intrigados, pois sempre tivemos a idéia de que sattva é uma condição indispensável para nossas mentes estarem preparadas para o autoconhecimento.


Mas sattva aqui, aponta para uma experiência de plenitude, e não para a plenitude em si. E experiências não representam aquilo que sou, pois elas vêm e vão). Estas experiências estão sustentadas pelo prazer, listadas pelo professor como priya, moda e pramoda.


Quase sempre, ouvimos falar sobre ānandamayakośa como uma epécie de “corpo de plenitude”, até porque estamos acostumados a relacionar esta palavra em sânscrito com plenitude em português, que é, realmente, um dos seus significados. Mas aqui não. Ānandamayakośa significa, de fato, a causa mais sutil da ignorância.


Desta forma, o professor, encerra esta explicação com um lindo verso, que diz: “Assim como um bracelete, um brinco, uma casa, etc; são reconhecidos como “meus”, e portanto, diferentes de Mim. Assim também é aquilo que é composto pelos cinco kośas. Reconhecidos como “meus”: meu corpo, meus sentidos, minha mente, meu intelecto e minha ignorância. Todos eles não sou Eu, o ātmā.”

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Da natureza dos objetos




Após dezoito dias de batalha, os Paṇḍavas retornam ao seu acampamento. Era da regra das guerras, que eles deveriam penetrar o acampamento de seus inimigos. Eles seguiram até o acampamento de Duryodhana. Entraram tocando suas conchas Pancajanya e a grande Devadatta de forma extraordinária.

Kṛṣṇa não queria que o entusiasmo dos Paṇḍavas fosse reduzido pelo acontecido em Samantapancaka (local da luta entre Bhīma e Duryodhana). Ele era o mais alegre entre todos. 

Logo ao chegar ao acampamento, Kṛṣṇa pediu a todos que prestassem atenção ao que ele ia dizer. 
Ele disse: “Arjuna, pegue o seu Gaṇḍiva e sua aljava e desça da carruagem.” Neste momento Kṛṣṇa ainda estava sentado nela. Arjuna o obedeceu. Após descer, Kṛṣṇa abandonou as rédeas e desceu daquela carruagem de ouro, adornada de pedras preciosas. No momento em que Kṛṣṇa desceu, o grande Hanuman que estava em sua bandeira, subitamente subiu aos céus e desapareceu. Foi incrível. Naquele mesmo momento, enquanto todos ainda olhavam para Hanuman, a carruagem começou a arder em chamas como se fosse uma pilha de madeira, e em questão de minutos, se transformou em um punhado de cinzas. Até mesmo os cavalos brancos de Kṛṣṇa queimaram. A carruagem de Arjuna, que antes era um símbolo de medo nos corações dos Kauravas, era agora, somente cinzas.

Arjuna, com seus olhos cheios d’água, se vira para Kṛṣṇa e diz: “Meu Senhor, o que é isto que estou vendo? Minha carruagem de ouro que me foi dada por Agni quando ele queimava a floresta de Khandava. Esta carruagem, que foi guiada por você todos estes dias, se queimou por razão alguma diante dos meus olhos! Eu não compreendo! Por favor, me diga o que aconteceu.”

O olhar de Kṛṣṇa era de desaprovação. Ele disse: “Arjuna, ela serviu ao seu propósito. Ela não é mais necessária. 
Esta carruagem foi capaz de suportar todas as armas usadas por Drona e Radheya. Ela suportou a Brahmāstra usada por estes dois homens e ainda as armas de Aswatthāma. Ela devia ter se queimado há tempos. Mas como eu estava nela, isso não aconteceu. Eu a abandonei agora, após você ter conquistado aquilo que você deveria conquistar. Então ela se queimou. Eu a permiti ser reduzida à cinzas. 

Tudo neste mundo é criado com um propósito. No momento em que este é cumprido, ele não é mais necessário.” Aquele olhar de desaprovação de Kṛṣṇa desapareceu, dando lugar a um sorriso.

E novamente Kṛṣṇa disse: “Arjuna, assim também é com os Homens. Cada um tem um propósito nesta jornada que chamamos de vida. Somos enviados neste mundo com um propósito. Uma vez cumprido este propósito, o mundo não precisa mais daquele indivíduo. Este é o nosso caso, até mesmo eu. Eu me criei neste mundo com um propósito. Ainda não está acabado. Algo resta. No momento em que acabar, eu também morrerei. E assim será com você e seus queridos irmãos. Não sofra por aquilo que é perecível.” (Mahābharata)