quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Yoga sem rótulos



Aqueles que, em algum momento da história, foram contra algumas verdades tidas como absolutas, em seus tempos, acabaram queimados na fogueira. Começo este texto pelo final, pois hoje, ouvi esta frase em uma das aulas do Swamiji, e ela me relembrou algo que já estava com vontade de escrever.
Desde que comecei a estudar Vedanta, aqui na Índia, tenho observado o quanto ainda estamos distantes de compreendermos os objetivos que buscamos. Seja em uma pratica de yoga, seja em nossas vidas. O yoga, por exemplo, tornou-se moda, e além disso, também, tornou-se uma das maneiras que as pessoas estão utilizando para administrar suas carências emocionais. Não há nada de errado nisso. Mas é exatamente neste ponto, que nos tornamos vitimas fáceis daqueles que querem somente se aproveitar de nossa fragilidade.

Ao caminhar pelas ruas aqui, é fácil ouvir algum 'convite', alguma frase sugestiva de mendigos que se fingem de sadhus. Uma pessoa desavisada, um viajante desacompanhado, que esteja buscando desesperadamente respostas para suas perguntas, pode se deixar levar por estes falsos gurus.
Este e um problema mínimo, se levarmos em conta que as vítimas, somos nós, viajantes, e ainda em menor número porque estamos sempre desconfiados e acabamos nos afastando naturalmente destes perigos. Mas o ponto em que desejo chegar é mostrar que essa tendência se estendeu até os professores, dos mais aos menos famosos.
Não digo, também, que este problema foi gerado somente por eles, mas em boa parte por seus alunos e seguidores. Pessoas que começam a enaltecer tanto os seus professores, que de uma hora para outra, estes já aparecem com o titulo de ídolo, guruji, santo e até mesmo a personificação de Deus.
Aqui na Índia é fácil encontrar pessoas que arrastam multidões em suas aparições. Gurus popstars que enganam as pessoas com truques mágicos, ilusionismo, poções para rejuvenescimento e etc. Alguns poucos são verdadeiros, mas e preciso garimpar com bastante cuidado. Na maioria das vezes, acharemos os professores mais sinceros e verdadeiros, cercados apenas de poucos discípulos e em lugares sem ostentação.
Uma boa ferramenta para encontrá-los é, em primeiro lugar, um diálogo franco com os professores que já temos ou conhecemos. Não ter vergonha de perguntar sobre nenhum assunto e o mais importante, observar como estes professores se posicionam.
Nenhum professor é o dono da verdade. Mas como em qualquer profissão, é alguém especializado no assunto que certamente já traz uma bagagem de experiências. Em minha opinião, também sendo professor, acho muito bom indicarmos um caminho interessante para os alunos, mas ainda mais importante, é deixá-los livres para experimentar aquilo que eles mais se identifiquem na etapa da vida em que estão vivendo.
Se um praticante não se identifica com a maneira que conduzo minhas práticas, pode ser perfeitamente feliz com outros professores. Outra boa ferramenta para descobrir onde você está no mundo do yoga é usar a internet: professores, escolas, instituições, linhagens, tudo está na web. Este é um outro importante ponto a ser discutido: as linhagens. 
O Yoga como negócio.
Estas linhagens do yoga, no ocidente, acabaram se tornando rótulos. A indústria do yoga criou suas próprias "linhagens", que nada mais são do que marcas registradas. Como se o yoga fosse um produto que você pudesse escolher na prateleira de um supermercado. Estas linhagens, no melhor dos casos, remontam há 60 anos.
Então, novamente volto às raízes do yoga aqui na Índia. Pego de uma vez, três linhas: Karma, Bhakti e Jñana. O primeiro pensamento que nos vem é o de identificar o que cada uma destas palavras significa. Karma, que significa ação, o yoga da ação. Bhakti, que significa devoção. O yoga devocional. Jnana, que significa conhecimento. O yoga da disciplina do estudo dos textos sagrados, antigos, os Sastras. Em um instante já separamos aquilo que deveria ser inseparável. O yoga, a união, a junção.
Seria, então, possível praticar ásanas (ação) sem conhecimento? Sem devoção? Seria possível ser um devoto sem ação, ou sem conhecimento sobre aquilo que ele se dedica? Poderia haver conhecimento sem ação? É claro que a resposta é negativa. Não podemos separar os diferentes aspectos de uma prática de yoga.
E é este o grande problema dos dias de hoje. A onipresença de rótulos e marcas registradas que compartimentam o mundo do yoga. Principalmente o Hatha Yoga. Em países onde o número de praticantes de yoga se multiplicou, ele se tornou um grande negócio. Algumas escolas que mantinham o verdadeiro espírito do yoga foram perdendo espaço para associações poderosas, promovendo idéias de certos professores ou "mestres".
Nestes locais a meta não é mais o samadhi, mas o lucro líquido, o sorriso no rosto do cliente. Estes são os templos dos 'novos' gurus. O yoga foi perdendo a sua essência e se adaptando aos horários e gostos dos "clientes". Principalmente nestes lugares, se torna difícil manter um aluno sentado para simplesmente respirar ou meditar. Ele já foi ali com intuito de suar ou pelo menos de ficar de cabeça para baixo. 
A questão dos rótulos 
Hoje em dia, a ansiedade no mundo do yoga por usar rótulos chegou ao extremo. Novos aspirantes a 'guru' precisam ganhar uma fatia do mercado e se debruçam sobre o dicionário de sânscrito em busca de um novo nome, uma nova etiqueta essencial para uma nova fórmula de sucesso. Depois, saem correndo para o Departamento de Registro de Marcas e Patentes para se apoderar desse nome antes que mais alguém o faça.
Assim testemunhamos o nascimento de 'formas, métodos e tradições de yoga' que nada mais são que simples marcas registradas. Segundo Swami Satyananda do Bihar School of Yoga, da Índia, 'o yoga é a ciência para uma vida correta, e para isso deve ser incorporada ao cotidiano. Funciona em todos os aspectos pessoais: físico, vital, mental, emocional, psíquico e espiritual.
A palavra yoga significa unidade ou união e é derivada da palavra sânscritayuj, que significa juntar. Na última metade do século passado, o Hatha Yoga se tornou o sistema mais conhecido e praticado. No entanto, hoje em dia, a prática tem se resumido somente às posturas, pranayama, mudras ebandhas.'
David Frawley, outro grande autor sobre estudos de yoga, diz o seguinte: 'Hatha yoga é muito mais do que ásana. É um sistema completo e integral de desenvolvimento espiritual para o corpo, mente e alma. Não é apenas um sistema físico sofisticado, mas contém, em profundidade, conhecimento sobre o corpo sutil, seus nadis e chakras. Não se resume somente aos detalhes dos ásanas, mas também, pranayama, mantra e meditação.
O objetivo na prática de ásana no Hatha Yoga tradicional, também se difere daquele das práticas modernas. A prática não serve meramente para nos fazer sentir melhor no plano físico. Ela contém intensas práticas ascéticas para a purificação física e psíquica. É uma via para a iluminação ou auto-realização, e não somente um sistema preliminar baseado no corpo.
Se olharmos o Hatha Yoga hoje, perceberemos que poucos estão realmente praticando e que poucos compreendem do que se trata.' E isto é realmente um problema se o relacionamos com a questão dos rótulos. Hoje em dia, professores induzem alunos a uma certa prática de yoga, como se ela fosse a cura para todos os males.
Cada corpo se adapta melhor a uma forma de praticar. Não existe um método único que sirva para todos os humanos. Talvez o yoga tipo A não seja aconselhável para o corpo X. Isto até poderia ser um ponto positivo para o rótulo do yoga, mas não é por inteiro. O yoga bom é aquele que lhe faz sentir-se bem. Aquele que integra tudo aquilo que você está buscando, sem apelações.
A boa prática deixa você bem disposto, e não cheio de dores nas articulações. A prática completa integra ação, devoção e conhecimento. Não é somente a demonstração seca de um corpo e seus constituintes. Use o seu bom-senso e procure professores com a mente aberta. Que lhe deixem livre para ter suas próprias experiências e fazer suas investigações. Professores que vejam o yoga como uma ferramenta para a liberdade. E não estejam ligados a associações que promovem apenas seus próprios interesses corporativos. Se continuarmos assim, daqui a mais alguns anos todas as palavras em sânscrito terão um proprietário. 
Citando novamente Swami Satyananda do Bihar School of Yoga: 'Os princípios do yoga proporcionam uma verdadeira ferramenta para combater o mal-estar social. Em um tempo em que o mundo parece perdido, rejeitando antigos valores sem poder estabelecer novos. O yoga proporciona meios para as pessoas acharem suas próprias vias para se conectarem com suas essências. Através desta conexão é possível manifestar harmonia e compaixão onde não havia.
Neste ponto, o yoga está bem distante de ser simplesmente exercício físico, ou melhor, é uma maneira para estabelecer uma nova maneira de viver que engloba realidades internas e externas. No entanto, esta maneira de viver é uma experiência que não pode ser compreendida intelectualmente, e se tornará apenas conhecimento vivo através da prática e da experiência.' 
O fim do Yoga ou o Yoga como fim? 
Neste contexto de reducionismo do yoga, percebemos que as práticas estão cada vez mais compartimentadas. Existe aquele que só medita, aquele que só faz o ásana, aquele que só estuda os textos. É preciso perceber que o Yoga é uma prática holística e por isso, envolve toda uma disciplina, toda uma vida voltada para o estado de Yoga.
A prática tem estado com uma aparência de fast food. Onde as pessoas separam uma horinha de seu dia para 'fazer' yoga, como se fosse uma simples aula de ginástica em uma academia. Impulsionados por um mercado e uma sociedade que tem a aparência como principal objeto de desejo. Pessoas são induzidas a transpirar a enquanto fazem a aula. Saindo delas com uma enganosa máscara zen (palavra da moda), e assim impressionando aqueles que também se sentem inclinados a começar a prática.
Versões cada vez mais diluídas do yoga são lançadas para que se possa absorvar a grande massa de praticantes. Distanciando ainda mais os objetivos originais do Yoga. O Yoga se tornou uma simples ferramenta de condicionamento físico. E isto tem gerado inúmeros problemas administrativos aqui no Brasil.
Existe uma grande vontade de órgãos como Conselhos de Educação Física e Fisioterapia em nos regular. Querem que estejamos sob seus domínios, numa tentativa de arrecadar mais dinheiro e também de vaidade. Seria este o fim do Yoga?
Uma filosofia, uma cultura, uma maneira de viver, reduzida ao controle de algum órgão regido por pessoas que não entendem nada disso. Com certeza acabamos chegando a este ponto por conta própria. O desleixo em reduzir o yoga somente a uma pratica física ou aula de anatomia.
Viver em yoga não significa suar sobre o tapetinho ou sofrer com ajustes vigorosos. Como disse antes, a boa prática não faz com que nos sintamos exaustos ou doloridos. A verdadeira prática é aquela que nos conduz a nós mesmos. Yoga é uma ferramenta de autoconhecimento. Ele não é nem mesmo o fim em si mesmo.
Visualize como funcionam os seus cinco sentidos. Os sentidos físicos, limitados. Que só alcançam uma determinada distância, que só funcionam em determinada freqüência, e mais importante, que só funcionam para o lado de fora.
Agora imagine que praticando, você ganha mais um sentido. Um sentido chamado Yoga. Que serve não somente para o externo, mas também para o interno. Para que você possa pouco a pouco perceber a sua própria essência. Para que você possa realizar aquilo que não pode ser percebido pelo toque, pela visão ou pela audição.
Um sentido que talvez possa medir o imensurável. Um sentido que mostra aquilo que é verdadeiro. Tudo aquilo que não está preso ao tempo e espaço. Aquilo que é imperecível. O conhecimento. O conhecimento de si mesmo. Moksa, a liberdade, em relação à ignorância sobre minha própria natureza.
Às vezes não aceitamos bem palavras como iluminação ou liberação. Mas elas representam o conhecimento, são sinônimas. Conhecer a si mesmo é ser livre. 
Existem dois tipos de conhecimento segundo o Vedanta.
O conhecimento adquirido para se realizar alguma coisa. Este conhecimento não é suficiente em si mesmo. É necessário colocá-lo em prática. Por exemplo, a prática de ásanas. É preciso colocar em prática, repetir, até alcançar o domínio sobre a postura. Mas é um conhecimento, como dito, que não se suporta, que não conduz a um fim. 
O conhecimento de fatos é o outro tipo. Ele é suficiente. O conhecimento daquilo que eu sou basta em si mesmo. Ele não é ponte para outro conhecimento. O conhecimento é o fim. Ele leva a liberdade. Por isso o Yoga também não é um fim em si. Ele é este sentido, esta ferramenta que podemos usar a nosso favor.
Uma ferramenta para a transformação que ocorre através do conhecimento e não simplesmente da ação. É necessária uma transformação na atitude. A modificação desta atitude, modifica a maneira de encarar a própria vida.
O objetivo se torna amadurecer a mente para o autoconhecimento. Para que neste caminho de Yoga, ao me deparar com a verdade, possa reconhecê-la. Não adianta somente repetir, ou escutar, ou ler. Deve-se haver capacidade de entender.
E uma vez conhecendo a minha própria natureza, a minha busca se encerra. Uma vida de yoga envolve disciplina, um estilo de vida onde eu possa compreender a minha mente. A mente deve tornar-se uma ferramenta que não cause problemas para mim.
A liberdade e capacidade de escolhas que se tornam melhores. Isso não significa negar os papeis sociais, mas ter um compromisso comigo mesmo para o estudo, meditação, prática física e minha relação com o Absoluto. É uma vida que prepara para o caminho de autoconhecimento. Para que a vida faça sentido. Você já se perguntou o verdadeiro sentido de praticar Yoga?

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Yoga sūtras à luz de Vedānta



Introdução
Para muitos praticantes, o Yogasūtra obra seminal de Patañjali, é visto como um dos textos mais importantes dentro desta tradição. Porém, a bem da verdade, devemos lembrar que este tratado não contém ideias originais: suas bases estão firmemente fincadas na tradição védica.
Muitos pensam que Patañjali tenha “inventado” este sistema quando de fato, ele apenas reúne este corpo de conhecimento e o coloca como um sistema prático.
No estilo literário dos sūtras são retirados os excessos e mantido apenas o conteúdo necessário para que a mensagem seja compreendida à luz do seu devido contexto. A interpretação de um sūtra é algo bastante “perigoso” porque o intérprete pode “puxar a sardinha” para diversas direções. O que vemos, presentemente, é que esta obra é apenas traduzida por estudiosos que nem sempre estão conectados com a tradição da qual o Yoga nasceu.
Isso deixa muito espaço para especulação vazia e interpretações duvidosas e deixa os leitores, às vezes, com dúvidas quanto ao significado dos aforismos. Para entendermos os Yogasūtras, primeiro temos que entender bem a palavra Yoga. Para isso vou utilizar as primeiras linhas dos versos de saudação a Patañjali usados antes do estudo deste texto:
Yogena cittasya padena vacam malam śarirāsya ca vaidyakena Yo’pakarot tam pravaram muninam Patañjalim prañjaliranato’smi.
“Eu reverencio Patañjali, especial entre todos os sábios, que elimina os obstáculos da mente, da comunicação e do corpo, através do Yoga, gramática e da medicina.” Então, yogena (através do yoga) apakarot (eliminou) yaḥ (esta) malam (impureza) de cittasya (mente), de vacam (fala), padena (através do estudo da gramática) e śarirāsya (do corpo), vaidyakena (através da medicina).
Yoga é a disciplina que purifica a mente. A mente é chamada de antaḥkaraṇa, ou literalmente, instrumento interno. Aquele instrumento que me permite estabelecer uma relação com o mundo externo. Este antaḥkaraṇa é subdividido em quatro partes: Manaḥ (mente), buddhi (intelecto), citta (memória) e ahankara (ego).
É neste antaḥkaraṇa que estão as “impurezas”. É necessária bastante atenção com esta palavra, pois não há pensamento impuro, sentimento impuro, ou julgamentos impuros. A palavra impureza aponta, aqui, para um obstáculo ou uma distração que impede a visão clara sobre a minha natureza. Estas impurezas são os vṛttis (julgamentos, projeções, oscilações) oriundas da minha mente, sobre as quais Patañjali falará no segundo sūtra.
Através do estudo da gramática da língua (sânscrito, no caso) são eliminadas as impurezas da fala. Patañjali toca neste assunto, pois as nossas vidas são estabelecidas em relações com outras pessoas (viavahāra). E para que não haja maus entendidos. Que a comunicação seja clara. Através da medicina (vaidya), que é o nome dado a um médico ayurvedico, pois um corpo saudável é um instrumento indispensável para uma vida de Yoga.
Citando a Taittiriya Upaniṣad: “Aquele (Om), surgido dos Vedas imortais, que é o mais proe- minente dentre os Mantras védicos e que encerra todas as formas é Indra (aquele que governa a mente). Que ele me fortaleça com inteligência. Que eu possa usufruir da imortalidade. Que meu corpo esteja capacitado (para o conhecimento). Que minha língua seja bem doce (que eu fale sem ofender). Que através dos meus ouvidos eu possa escutar repetidamente (as escrituras).” (Cap I, seção IV).
Ao esclarecer todos estes pontos, fica mais fácil entender o porquê Patañjali começa o seu tratado com a palavra “atha”. O primeiro capítulo do Yogasūtra fala sobre o objetivo da disciplina. Por isso é chamado de sadhya pādaḥ ou samādhi pādaḥ.
A palavra sadhya significa objetivo. O seu radical vem de dhanu, que significa arco. Então, de forma simbólica, colocando-se a flecha (sadhaka – você) no arco (sadhana – a disciplina), atinge-se o objetivo (sadhya).

Samādhi pāda  
atha yogānuśāsanam || 1 ||
Então, o ensinamento do Yoga.
É interessante vermos que o tratado começa com esta palavra “então”, ou também traduzida como “agora”. Estas palavras apontam para o fato de que antes aconteceu alguma coisa, e que, agora o Yoga começa. O Yoga começa, no sentido de que agora há mumukṣutvam, ou seja, o desejo por liberdade ou o desejo por autoconhecimento. É dito nos Vedas que existem quatro puruṣarthas, ou seja, quatro objetivos (arthas) na vida de um ser humano (puruṣa). Estes são: artha (segurança), kāma (prazer), dharma (uma conduta correta e honesta) e mokṣa (liberdade ou autoconhecimento).
Para que a verdadeira vida de Yoga comece é necessário que a pessoa tenha se dado conta que o sentimento de plenitude ou adequação em relação ao mundo não surge pela conquista de objetos que lhe tragam a sensação de segurança ou prazer, mas que estes já são inerentes à ela, bastando apenas que ela tenha a capacidade de se ver claramente. Então livre do condicionamento de que os objetos são as fontes de felicidade, a pessoa pode se dar conta de que esta felicidade é sua própria natureza. Basta que ela tenha este desejo firme e honesto pelo autoconhecimento.
A palavra atha, também aponta para algo auspicioso. Dizendo: “agora é o momento auspicioso para o estudo do Yoga.” A palavra ganha o valor da sílaba Om, como colocada no Mantra da Taittirīya Upaniṣad: “Om é Brahman. Oṁ é tudo isto. Esta palavra, Om, é de fato, uma palavra de aceitação e anuência. Ademais (os sacerdotes) fazem recitar (aos deuses) as seguintes pala- vras de condução: “Oṁ, recite (aos deuses)”. (O oficiante do Sāma Veda) entoa os Sāma-Mantras começando com Oṁ. (O oficiante do Ṛg Veda) entoa ao śāstras (Ṛg Mantras) pronunciando Om som. (O oficiante do Yajurveda) expressa a permissão pronunciando Oṁ. (O oficiante do Atharvanaveda) dá a permissão pronunciando Oṁ. O sacerdote permite a realização do ritual Agnihotra pronunciando Om. Ao recitar os Vedas, desejando aprender, O brâmane entoa Oṁ com o pensamento “Que eu alcance o conhecimento Védico.” Ele certamente alcança Brahman.” (Cap I, seção VIII)
Em seguida vem a palavra “yogānuśāsanam”, que na verdade é um composto de três palavras: “então o Yoga será ensinado, estudado (que vem do radical śās, que é o mesmo radical da palavra śāstra) com o prefixo anu, que significa de acordo, ou segundo.” Então: o Yoga será ensinado de acordo com os Śāstras, ou aquilo que está nos Vedas. E os Vedas apontam para mokṣa. O meio para se “atingir” mokṣa é dado no segundo sūtra. Chamamos de meio porque o objetivo não é simplesmente ter uma mente disciplinada. Mas esta disciplina serve para algo mais.
yogaścittavṛttinirodhaḥ || 2 ||
“Yoga é a cessação [da identificação] com os cittavṛttis”.
Aqui Patañjali define o que é esta disciplina chamada Yoga. Normalmente este sūtra é traduzido como o “controle da mente”, mas novamente temos que atentar para o que é este controle. Na palavra nirodhah, está o radical rudh. Rudh significa controlar sem esforço. Controlar naturalmente. Usando o esforço quando necessário. Mas mesmo entendendo este radical, a compreensão deste sūtra fica um pouco superficial.
Na Bhagavad Gītā, Kṛṣṇa define o Yoga da seguinte forma:
Tam vidyādduhkhasaṁyogaviyogaṁ yogasañjñitam sa niscayena yoktavyo
“Que seja sabido que esta dissociação da associação com a dor é chamada Yoga. Yoga deve ser seguido com determinação e sem uma mente que tenha indiferença.”
O sofrimento é fruto de nossa identificação com os vrttis (julgamentos, pensamentos, projeções...). Quando me identifico com um destes objetos, automaticamente me vejo limitado à for- ma e atributo que vem junto deste. Existem dois tipos de objetos criados pela mente, citados no décimo capítulo da Pancadaśi:
Antarmukhahamityesa vrttiḥ kartaramullikhet Bahirmukhedamityeṣa bahyam vastvidamullikhet (6)
“O pensamento interno da mente (na forma de) “eu” faz aparecer o agente da ação. O (pensamento) externo (na forma de) “isto” faz aparecer o objeto externo.”
Enquanto estou identificado com estes objetos, não enxergo aquilo que é a base destes mesmos objetos, que sou eu. Então para realizar a minha natureza, é necessário ir além das identificações com os objetos. Por isso este controle da mente não significa pensar de uma forma definida, ou parar de pensar. Mas não se associar aos pensamentos ou sentimentos. Não assumir as formas deles. Esta é a disciplina!
Patañjali fala sobre o objetivo desta disciplina, agora, no terceiro sūtra:
tadā draṣṭuḥ svarūpe’vasthānam || 3 ||
“Então, há a permanência na natureza do sujeito”
Para entendermos este sutra, é necessário termos compreendido a fundo a questão de não associação com os objetos. É aqui que isto faz sentido. Foi dito que se estabelecem dois tipos de pensamentos: um classificado como aham (eu) e outro classificado como idam (aquilo). Para um pensamento ser pensado, é necessário que haja uma base para eles existirem. Esta base sou Eu. Este Eu não é o pensamento eu, mas é aquele que faz com que este eu exista. Da mesma forma, este Eu sustenta o pensamento idam (aquilo). Normalmente o pensamento idam não é o maior dos problemas. Tudo aquilo que vem de fora e é captado pelos meus sentidos é classificado na minha mente como idam. Aquilo que é diferente de mim. Uma porta, um carro, outra pessoa, etc. Geralmente não há uma identificação com este tipo de objeto. O problema surge com os pensa- mentos “internos”. Um sentimento, uma emoção ou julgamento. São nestes objetos que estabeleço minha identidade. Então me associo ao atributo destes pensamentos.
Quando isto acontece, não enxergo claramente aquilo que sustenta o pensamento, o verdadeiro Eu. Por isso no segundo sūtra podemos entender: “Yoga é esta disciplina ou o estado no qual não estou identificado com o conteúdo da mente.” A questão é que, quando a mente não identifica nada, fica perdida. Este Eu, não é um objeto, mas é o sujeito que percebe todos os objetos. Este Eu é livre de qualquer tipo de atributo.
E quando a mente se perde, se abre espaço para especulações e dúvidas sobre como este Eu será conhecido. De fato, este Eu, não será conhecido pela mente. É dito nos Vedas que a mente é o veículo para o autoconhecimento, mas que, ao mesmo tempo, o autoconhecimento não se dá através da mente. Exatamente porque a mente só funciona através de nomes e formas. E quando ela se depara com algo que é livre de qualquer tipo de qualidade, se perde.
Śankara comenta na Muṇḍaka Upaniṣad: tattva darśana upaya yogaḥ.
O suporte (upaya) para a visão (darśana) daquilo que é real (tattva) é Yoga. Então (tadā), para que eu veja (draṣṭuh) e permaneça (avasthānam) na minha própria natureza (svarūpe), é necessário este suporte que é a disciplina de Yoga.

Citemos a Gītā mais uma vez:
Yuñjannevam sadātmānam yogī niyatamānasah śāntiṁ nirvānaparamāṁ matsaṁsthāmadhigacchati. (Cap 6, 15)
“Desta maneira, tendo a mente disciplinada, o yogi, mantendo sempre a mente (no Eu), alcança a paz que é a liberação, que é sua própria natureza.”

Desta forma, Patañjali relaciona os sūtras dois e três de forma extraordinária nos apontando para o meio e para o objetivo de uma vida de Yoga. Não podemos dizer que o restante da sua obra não seja importante, mas podemos dizer que o que vem depois é um detalhamento de tudo aquilo que está compreendido nestes três primeiros sūtras. Somente entendendo bem esta base é que o estudo de todo o tratado fará realmente sentido.

Fantasiado de yogi



E Kṛṣṇa já solta logo a real, logo no início do cap 3 da Gītā: "karmendriyāni samyamya ya āste manasā smaran | indriyārthāvimudhātmā mithyācāraḥ sa ucyate"

"Aquele que recolhendo seus órgãos de ação senta-se pensando nos objetos de seus desejos, é tido como aquele que está iludido, cujo comportamento é FALSO."

Este é o típico exemplo daqueles que se fantasiam de yogis. Aquele que cria impacto sobre as pessoas, porque sabe fazer cara de paisagem. Aquele que parece um renunciante perfeito. Livre de desejos. Mas que na verdade, não consegue ser honesto consigo mesmo. Não assumindo as suas agitações e anseios, oriundos de desejos reprimidos. Muitos destes "grandes yogis" acabam sendo flagrados se aproveitando das fraquezas de seus alunos; emocionalmente, financeiramente e, por vezes sexualmente. É só dar um google em vários nomes famosos, de todos os lugares, inclusive a Índia, para descobrí-los. Na era da internet, nada mais está escondido.
Há um entendimento muito ruim sobre a renúncia, quando se confunde o EU, que é sempre livre, e o ego, que diz: "agora eu renuncio." Neste caso, não há um entendimento do EU, que na verdade, não renuncia à coisa alguma; já que é livre da ação e seus resultados.
A renúncia pode se tornar um status: "eu renuncio a isto ou aquilo. Sou livre de desejos..."
Aquele que é de fato, livre dos desejos, não precisa anunciar isto ao mundo. Isto acontece para que as pessoas valorizem a "proeza" da renúncia. Este tipo de renúncia, de forma alguma significa conhecimento. Pelo contrário: significa a necessidade de reconhecimento, fama, dinheiro.
Naiṣkarmyam é o entendimento de que de fato eu nunca fiz nada. É aquele que, de fato, é livre dos desejos. E isso só é possível para aquele que tem o entendimento de aham brahman. Ou seja, de que eu sou aquele livre de limitações.
Portanto, para Kṛṣṇa, superior (yogi) é aquele que é sincero com a sua natureza individual. Este, não tem discrepância entre aquilo que faz e demonstra e aquilo que sente e pensa. Este consegue uma estabilidade para a mente essencial para o autoconhecimento. Enquanto aquele que se fantasia, se tortura, pois não pode externar o que sente de verdade. Trocando em miúdos, é melhor admitir as suas próprias limitações, do que fingir ser algo que você não é.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A importância de um mestre




Hoje em dia o Yoga se transformou em um negócio bastante lucrativo. Ao mesmo tempo em que virou um negócio, se perdeu em sua essência. No Brasil se formos à uma livraria, encontraremos os livros de Yoga nas prateleira de esoterismo e/ou, pior ainda, na seção de auto-ajuda.
Na era das redes sociais, não é difícil de se encontrar milhares de frases de efeito relacionadas a mestres daqui e dali. Mas sera que estas frases são, de fato, destes mestres? E mais ainda, sera que estes mestres estão realmente ligados à Tradição védica?
Há um surto de organizações mundias de Yoga e bem-estar que vem crescendo mundialmente. E mesmo direto da India (claro, pois assim têm mais crédito e respaldo). Imitando modelos empresariais de pirâmide, os quais prendem seus adeptos aos seus cursos e produtos, gerando lucros sem fim.
Portanto, para chamar um mestre de mestre, é só ver o seu perfil na rede social e dali, segui-lo? Ouvir Cd's? Ler livros? Sair repetindo as frases feitas por eles? Ou será preciso estar na sua presença? Conhecê-lo de fato? Saber ao mesmo tempo que ele te conhece para que possa guiá-lo?
Um mestre, para ser teu, tem antes de tudo que te conhecer. Para saber trabalhar contigo naquilo que mais você precisa. Te guiar em práticas adequadas.
Um mestre, não precisa fazer discípulos. Um mestre é um renunciante, portanto, não precisa de lucros ou fama.
Existe um mantra bastante interessante na Taittirīya Upaniṣad, que diz: “Que eu tenha fama”(o mestre). Mas esta fama é no sentido de que os seus próprios alunos sejam reconhecidos pelo mérito de suas capacidades para ensinar.
Porque, na verdade, o que um mestre ensina, não é mérito dele. É merito do seu mestre. Que por sua vez teve seu mestre, e assim em diante.
Um professor que está dentro da Tradição védica, não está emitindo a sua opinião. Está apenas repetindo aquilo que já vem de muito tempo. Dos Vedas.
Nesta tradição, o ensinamento vem do professor em forma de diálogo porque algo deve ser entendido. Algo deve ser seguido, não apenas “engolido”. Em uma crença, você engole. É algo que tem que ser aceito por completo, sem questionamento. Qualquer questionamento que se estabeleça é apenas para estabelecer ainda mais a crença. O que na verdade não é nenhum questionamento. Por isso há tantas tentativas para tentar se provar que alguém existiu em determinado momento da história. Se alguém existiu ou não, não é o que importa. O que importa é o ensinamento.
A essência de todo de vários tipos de conhecimento por muitas vezes encontra-se extremamente criptografada e torna-se difícil de ser compreendida. Assim é no caso dos textos antigos de Yoga, como a Bhagavad Gītā ou Yoga Sūtras. A pessoa deve ter completo conhecimento sobre os Śāstras para poder apreciar em sua plenitude tudo aquilo que estes textos estão dizendo.
Por exemplo, mesmo Arjuna, na Gītā, tendo certo “background”, não foi fácil para ele compreender. Ele teve que questionar. Se não foi fácil para Arjuna, certamente não é para nós, que vivemos em um tempo no qual não dispomos de tanto tempo para meditações e reflexões.
Para pessoas como nós, estes textos tomarão muito tempo para serem absorvidos. Este conhecimento se apresenta na forma de palavras. Porém, o objeto de estudo é algo único, portanto, nem sempre este conhecimento se torna acessível através das palavras. Ao mesmo tempo, as palavras são empregadas para que o Ser seja imediatamente revelado. Portanto, todos nós precisamos não apenas do ensino de Vedānta como um pramāṇa, mas também de um professor, um guru.
A necessidade de um professor
Existem duas sílabas na palavra guru. “Gu” significa escuridão ou ignorância, e “Ru” significa aquele que a remove. Portanto, um guru é aquele que remove a escuridão da ignorância ao ensinar o Śāstras. O ensinamento é o Śāstra e o professor também é o Śāstra.
O que isto significa? O ensinamento se torna vivo quando ele é dado na forma correta. Do contrário, tudo o que se tem são palavras sem significado. Mesmo que o ensinamento seja um pramāṇa, há uma metodologia empregada para que as palavras ganhem significado. Um professor, ou um guru, é aquele capaz de revelar o significado das palavras. As palavras já estão lá e o significado também está lá. Elas apenas precisam ser reveladas para a sua compreensão.
Quem é o primeiro Guru nesta linhagem que fazemos parte?
Podemos responder esta questão com outra: quem é o primeiro pai? Quando você me disser quem é o primeiro pai, eu lhe direi quem é o primeiro guru. Em ambos os casos é a mesma coisa. Portanto, se você diz que o Criador é o primeiro pai, ele também deve ter um pai. O que significa que ele não pode ser o Criador. Portanto, não há pai para aquele que chamamos de Criador.
Alguém disse que o primeiro pai era um macaco. O que é uma conclusão presumida. No entanto, você se dará conta que este macaco tinha um pai, que tinha um pai, que tinha um pai, até que você finalmente desista. Porque você entra numa regressão infinita, é melhor desistir. Ou você pode concluir que o primeiro pai era aquele que não era filho. Ele era apenas pai, o qual chamamos de Criador.
Se assumirmos que o primeiro pai é o Criador, então, o primeiro guru não será diferente deste Criador. E, a partir deste Criador, há uma linhagem professor-estudante chamada de guru-śiṣya-paramparā. O Paramparā é invocado no seguinte verso:
Sadaśivasamarambham śankaracaryamadhyamam|asmadacaryaparyantam vande guruparamparam||
Eu saúdo a linhagem de mestres que começa com Śiva, tem Śankara no meio e vai até meu mestre.
Portanto, quando você saúda o professor, suas saudações vão até o Criador, onde a linhagem começou. Para apontar o meio desta linhagem, Śankaracārya é mencionado, o que significa que ele está ali, em algum ponto, unindo o Criador ao presente professor. Se usamos a palavra meio, isto também significa que há um fim. Se o início é representado por Śiva, significando o Criador, aquele que é plenitude, conhecimento. E o meio é Śankaracārya. Quem está no fim? Meu professor.
Estando aqui hoje, verifico que não houve quebra na linhagem entre o primeiro pai e eu. Similarmente, se o conhecimento está chegando até a mim agora, eu sei que ele se manteve vivo através da tradição professor-aluno.
Como escolher um professor
Escolher um professor também pode ser um problema. Muitas coisas são ditas por muitos. Todos se dizem donos da verdade.
Se alguém lhe diz que você tem um problema, então esta pessoa pode manipulá-la. No entanto, se alguma pessoa lhe diz que este problema que você parece ter é um engano, então esta pessoa é objetiva. E, se o problema for real, ninguém será capaz de resolvê-lo.
Se a situação é real, como pode ser transformada? Se eu realmente sou uma pessoa limitada e inadequada, não haverá forma de resolver este problema. Com ou sem ajuda, o limitado é sempre limitado. Mas, aqui, não há necessidade de se dizer: “se sou uma fração do Todo, sempre serei esta fração.” Se eu sou o Todo, a conclusão de que sou uma fração é um engano, e a maneira de sair desta visão é me enxergar de maneira clara. Então, aquele que diz que o problema é um engano e que este engano é universal, não apenas um engano pessoal, este, pode ser um guru.
Para que eu me reconheça como o Todo e que, portanto, me aceite, é dito: “Que você encontre um professor” (Mundaka Upaniṣad – 1.2.12). Que tipo de professor? Os Vedas dizem que o professor é aquele que domina o que ensina e que está enraízado neste conhecimento. Mas como saber se este professor domina o conhecimento ou não? Se eu quiser estudar matemática avançada, eu preciso apenas procurar por alguém que tenha estudado matemática avançada. Eu posso presumir que esta pessoa conhece o assunto e, então, decidir estudar com esta pessoa à menos que ela prove o contrário.
No entanto, quando procuro um guru, há um problema, pois sendo o conhecimento sútil ou espiritual, como saber se esta pessoa se expôs ao conhecimento e à disciplina da tradição? A menos que você já tenha um conhecimento sobre si mesmo.
Deveríamos ter um mínimo de informação para sabermos se aquele professor tem conhecimento ou apenas finge ter. A pessoa também pode estar iludida, não fingindo saber, mas pensando saber. Tais pessoas não sabem que não sabem.

Um professor, na verdade, é uma pessoa comum, como você. Com um pouco mais de bagagem, de experiência, para pode transmitir o ensinamento.

Uma boa forma de se verificar se este ensinamento é bem transmitindo e faz sentido, é quando ele não contradiz a lógica da mente. É quando aquilo que é ensinado pode ser, realmente, aplicado na vida cotidiana.

Yoga não é um assunto sobrenatural e jamais deve ser ensinado com frases complexas ou de efeito. Quando nos deparamos com coisas que parecem lindas poeticamente, mas não fazem sentido algum. Não é um bom sinal.

Um bom professor, sempre ensina de forma simples, clara e que toca o coração dos seus alunos. Ajudando-os a enxergar aquilo que deve ser visto.